É dezembro e o calendário dos últimos quatrocentos anos, diz que finda o ano ao dia 31. Inúmeros começam a fazer o balanço do que passou e do que virá. Com a revolução do planeta em torno do sol, surge a resolução do que fazer pelo próximo ano. “Uma melhor versão de si” é o sonho geral ao passo que as resoluções de novo ano, são animadas por estratégias pessoais. Movidos pela experiência e com a ideia de direções suspeitamente melhores, espera-se que cada resolução traga a melhoria desejada.

Nova vida, nova casa, novo corpo, novo trabalho, novo dinheiro, nova relação, novas experiências, novas riquezas, todo um novo eu melhorado.

iVida, iCasa, iCorpo, iTrabalho, iDinheiro, iRelação, iExperiências, iRiquezas e iEu. Com tanto “i” é preciso impulso e muitos o têm, mas poucos o pulso, para manter.

“Começar uma nova resolução, no dia 1 de janeiro é como tentar arrancar com uma maratona, subindo, uma montanha, de areia. Boa sorte!”

Toda a natureza tende a hibernar, abrigando-se neste período para proteger a vida e a energia. As árvores concentram o calor da vitalidade nas raízes sem grandes impulsos para as extremidades. Os ursos e outros animais hibernam, aguardando o momento propício para o impulso vital que os fará vingar no novo ciclo. Um simples passeio pela natureza revela um óbvio que passou a segredo: tudo o que é vivo aguarda o momento certo para dar início e não é com a passagem de ano que começámos a seguir. Começar uma nova resolução, no dia 1 de janeiro é como tentar arrancar com uma maratona, subindo, uma montanha, de areia. Boa sorte!

Corria o ano de 1582 e o Papa Gregório Treze (não gozarás este nome) instaurou o calendário gregoriano. Espanha e Portugal, obedientes e tementes que eram, foram dos primeiros a adotá-lo. Entre muitas críticas e contestação, o mesmo foi sendo adotado com muita resistência pelos países ocidentais. Em 1700 pela Alemanha, 1752 pela Grã-Bretanha, 1918 pela Rússia em 1923 pela Turquia. Antes deste tínhamos o calendário juliano, que vinha dos tempos do Júlio César e das manias dos imperadores. Talvez por isso, o calendário juliano era reconhecidamente, uma merda como calendário, ficando desfasado em pouco tempo. O calendário gregoriano era uma merda melhor que viria martelar o anterior e permitiu que efetivamente houvesse um melhor ajuste com as estações sazonais, tão importantes na agricultura. Ainda assim é um calendário limitado, sendo apenas solar e com pouca a nenhuma relação aos céus.

Depois temos os calendários lunissolares, baseados no movimento da lua e do sol. O calendário chinês é um exemplo disso. Enquanto o calendário gregoriano conta com 100 a 400 anos no mundo ocidental, o calendário chinês vigora há mais de 4700 anos. Dando provas no tempo da sua eficácia para alimentar os povos e alinhar o ser humano com os ciclos naturais do planeta, do sol e da lua.

“O despertar vital na natureza, inicia-se com a segunda lua nova a seguir ao solstício de inverno. Inicie aqui, se quer aumentar as suas hipóteses de vingar nas resoluções de novo ano.”

É sabido desde a ancestralidade, que a natureza desperta com o novo ciclo. Os bichos que hibernavam acordam do seu torpor, o degelo ocorre, a flora começa a direcionar o calor vital para as extremidades, fazendo brotar sementes, folhas e flores. O movimento yin da natureza, anteriormente contrativo, noturno, sonhador e regenerador, dá lugar ao movimento yang, agora expansivo, diurno, ativo e revitalizante. É o início do novo ano, um novo ciclo, da primavera vital e nas culturas ancestrais era celebrado em fevereiro com muita festa e folia.

A ocidente o que resta deste conhecimento ancestral foi-se perdendo, apesar de existirem referências que sugerem que aqui esteve. No calendário romano, o início da primavera, era celebrado com o festival Lupercalia (15 de Fevereiro) sendo abolido pelo Papa Gelásio I, no século V e sobreposto pelo dia dos namorados. Também o Carnaval, parece sugerir a celebração do início da primavera em fevereiro, com referências a remontar ao festival da primavera de Ishtar na Babilónia, Osíris no Egipto, Festas Dionisíacas da Grécia Antiga ou Bacchanalia da Roma Antiga. A folia e o bacanal associado a esta festa, colocou-a na mira para ser reformulada a costumes mais comedidos.

A oriente a história seguiu outro rumo. As referências ancestrais perduraram sem a demonização da natureza nem do conhecimento sobre esta. Devido a isto, a ligação ao saber natural, manteve-se intocada.

Segundo os antigos sábios chineses, o despertar vital na natureza, inicia-se com a segunda lua nova, a seguir ao solstício de Inverno. Inicie aqui, se quer aumentar as suas hipóteses de vingar nas resoluções de novo ano.

O solstício de inverno assinala que o movimento yang começa a subir e o movimento yin a descer, no entanto é ténue ao princípio e a lua tem um papel fundamental a reger este movimento. Depois de um ciclo lunar o movimento está firmado e a natureza reage a este evento lunissolar despertando e ascendendo. O novo ano chinês é móvel por coincidir sempre com este evento que tende a calhar no início de fevereiro. No entanto, em alguns anos, como o de 2020 o início será na noite de 24 de janeiro,

“Este sistema é considerado um tesouro mundial pela UNESCO, tendo sido reconhecido em 2016 , Património Cultural Imaterial da Humanidade.”

Tipicamente, esta ocorrência ocorre por volta do dia 4 de fevereiro. Por cá generalizámos o ano em quatro períodos solares, reconhecidas como as quatro estações sazonais. Na China especificaram o ano em 24 Períodos Solares (24节气, jiéqì), apontando com uma precisão incrível eventos cíclicos na natureza. Este sistema é considerado um tesouro mundial pela UNESCO, tendo sido reconhecido em 2016 , Património Cultural Imaterial da Humanidade.

O ciclo vital de um novo ano, assim como a primavera são assinalados pelo Lichun (立春, “Início da Primavera”). Com a chegada da primeira lua nova de fevereiro, os chineses celebram o novo ano felicitando-se entre si. “Feliz ano novo” (新年快乐, xīn nián kuài lè) e “Muita sorte nesta nova primavera” 新春大吉 (xīn chūn dà jí) são algumas das expressões que podemos escutar.

Quer levar as suas resoluções anuais a bom porto? Alinhe-se com o novo ano, seguindo o ciclo que emerge naturalmente a cada ano. Dê o impulso seguindo o novo-ano do calendário chinês e boa sorte com a nova primavera!

Fotografia por Mark Basarab “Star Night Sky Ravine”